A Árvore da Degradação

Por do sol no Parque Nove de Julho sem árvores de natal artificiais
Dino Mottinelli (1)

Ao mesmo tempo em que acompanhamos, nas discussões sobre o novo código florestal, se a área (APP) a ser protegida nas margens de córregos, rios e lagos, deve ser de 5, 10, 50 ou 150 metros, temos aqui na Represa de Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de água potável a quatro milhões de habitantes de São Paulo, mais uma evidência da total displicência e desprezo por parte dos governos municipal e estadual com relação à conservação e manutenção deste importante manancial.

A Guarapiranga, que hoje, pelos mesmos motivos, tem a capacidade de comportar apenas 50% da água para a qual foi projetada e construída, vem sofrendo sucessivas e ininterruptas agressões, como invasões motivadas pela falta de políticas habitacionais, despejo de esgotos e outros detritos, minerações com alvarás caducados, construção de parques dentro de suas várzeas, especulação imobiliária, proliferação descontrolada de plantas aquáticas alimentadas pela poluição, desmatamento e a não conservação adequada de suas águas e margens, etc.

A mais recente dessas agressões é a "Árvore de Natal da Guarapiranga 2011”, na altura do nº 2.800 da Av. Atlântica, com inauguração anunciada pela SPTuris, SABESP e PMSP para o dia 09.12.2011, que lamentavelmente estão nos querendo fazer acreditar que já faz parte do calendário de eventos da cidade (2).

Sem que seja respeitada qualquer metragem de segurança, pois a árvore é construída encostada na margem da represa em área de preservação permanente (APP), e sem que nenhum estudo de impacto ambiental tenha sido apresentado, pelo terceiro ano consecutivo realizarão este evento num local completamente inadequado, apesar da Prefeitura de São Paulo alegar no seu site ser tudo "ecologicamente correto", isso porque o material da árvore será reciclado (sic!).

Nesta represa habitam mais de 230 espécies de aves, conforme Inventário de Fauna e Flora feito pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente desta mesma prefeitura, publicado no Diário Oficial da Cidade de São Paulo (DOM) Nº 94 – Suplemento, Ano 55, de 21 de maio de 2010 (3). Elas são obrigadas a suportar shows por longas horas e um espetáculo pirotécnico de até 120 decibéis, com duração de aproximadamente 20 longos minutos nos réveillons dos últimos anos, procedimento que tem servido também de incentivo para outros feitos do mesmo tipo em toda a orla da represa. Parece que virou uma competição realizada por clubes, restaurantes e particulares.

Esta prática afeta, além das aves, animais selvagens e domésticos, como cães e gatos, que, pela sua audição mais sensível, entram em pânico pelo estresse gerado, ocasionando acidentes como atropelamentos, problemas cardíacos, agressões, mutilações, etc.

Existe outro agravante, que pode afetar inclusive os seres humanos, causado por estes fogos de artifício, os quais, além da emissão de mais dióxido de carbono na atmosfera desta cidade já tão poluída, despejam nas águas da Guarapiranga partículas inaláveis e quantidades consideráveis de antimônio, nitrato de estrôncio, bário e magnésio, elementos químicos, alguns radioativos, que podem causar inclusive câncer. Teria a Sabesp condições de tratar isso antes de consumirmos esta água (4)?

No Chile a queima de fogos é restrita à locais e prazos previamente autorizados. O Comitê Olímpico Internacional (COI) planeja suspender tal prática nas competições esportivas. No México foi comprovado o aumento significativo na poluição ambiental. Portugal e outros países da União Européia também estudam acabar com esta prática. Até na China existe esta preocupação.

Definitivamente não precisamos correr mais estes riscos. Alguns falarão em tradição, mas gostariamos de observar que antes não se dispunha das informações que existem agora. Outros mencionarão espetáculos como o de Copacabana, mas é bom lembrar que, apesar das partículas inaláveis e do mal causado também ao meio ambiente marinho, a água do mar não é consumida diretamente por nós.

A nossa Guarapiranga, que neste mesmo local da árvore de natal recebe vários eventos, como missas e shows diversos, serve de estacionamento para centenas de veículos em ocasiões como a Fórmula 1, circos, aterros, etc. (5). Esta área deveria é estar sendo recuperada, ou ao menos preservada, e não cada vez mais degradada por atividades dessas, que produzem toneladas de lixo e dejetos de todos os tipos, em que parte considerável acaba inexoravelmente dentro das águas da represa.

Todos sabem que, nós, o povo daqui da nossa abandonada periferia é absurdamente carente de muita coisa, inclusive de eventos. Há outros locais para isso, não onde possa prejudicar mais ainda a Represa de Guarapiranga. Atividades de lazer não devem ser praticadas onde possam contaminar a água que bebemos, pois não vivemos sem ela. E todo mundo já sabe como é crítica a situação da mesma em todo o planeta.

OBSERVAÇÕES (6)

1- Dino Mottinelli é Vice Presidente Financeiro da Associação Movimento Garça Vermelha.

2- Segundo informações fidedignas já existe uma Ação Civil Pública no Tribunal de Justiça com Sentença Condenatória. A prefeitura já deveria tirar todos os equipamentos daquela área. Além disso, há um Inquérito Civil Público correndo no Ministério Público, o mesmo que foi ressuscitado por ocasião da “arvore de natal 2010”.

3- Para acessar o Diário Oficial do Município em referência, procurar no blog do Movimento Garça Vermelha o título “Sites de interesse do Movimento Garça Vermelha” e clicar no subtítulo “Inventário da Fauna do Município de São Paulo 2010”.

4- A SABESP foi consultada para saber se o tratamento realizado por ela consegue retirar os elementos químicos citados que se diluem nas águas da represa após a queima de fogos. Em resposta, a SABESP alegou que “quantidades desses materiais que compõem os fogos de artifícios em relação ao volume de água da represa, não chega a impactar na qualidade da água”. Quando tentamos realizar nova consulta para saber se existe algum estudo nesse sentido, não conseguimos. Nossa próxima pergunta seria a de “se já foi realizado algum estudo de impacto ambiental” sobre a queima de fogos. Temos certeza de que não. E, se houver, que a SABESP se manifeste. E aí sim, com propriedade.

5- Todos estes eventos agridem ao meio ambiente causam diretamente poluição nas águas destinadas ao consumo humano.

6- As observações desse texto são de responsabilidade do editor do blog do Movimento Garça Vermelha.

2 comentários:

Melander disse...

Será que, se solicitada, a Subprefeitura apresentará o Alvará ou Licença de Funcionamento da Árvore de Natal 2011?

Tenho a impressão, fundamentada em fatos anteriores, de que simplesmente não existem.

Dino disse...

Sabemos que, se MG e o interior paulista fecharem as suas torneiras para cá, a capital paulista irá dispor de menos água por habitante que o sertão nordestino.
Qual o motivo para a prefeitura e o governo do estado (Sabesp) se empenharem em acabar com os 50% que restam da Guarapiranga?
Será que estão planejando alguma mega obra que nos traga água de algum aquífero distante, e com isso "beneficiar" as grandes construtoras, as quais, conforme vemos diariamente na mídia, são os grandes "patrocinadores" dos nossos políticos?